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O DIA EM QUE A CULTURA SE RECONCILIOU COM OS MOVIMENTOS SOCIAIS

Quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Texto: Bruno Peixoto Cordeiro


A manifestação em defesa da manutenção do Armazém da Utopia do dia 04 de agosto, marcou um encontro raro. Representantes de inúmeros movimentos sociais e mandatos parlamentares estiveram presentes levando suas bandeiras, seu grito, seu discurso e sua indignação. O consenso na fala de cada liderança era um só: O Armazém da Utopia, mais do que a sede da Companhia Ensaio Aberto é, principalmente, a casa do teatro dos trabalhadores; do encontro de uma arte engajada e crítica de esquerda com os setores da sociedade civil que se mobilizam na luta por um Brasil mais atento na construção da justiça social que sempre nos foi negada. Estiveram presentes no nosso ato representantes da MST, CUT, CTB, UNE, UEE, a JUVENTUDE do PT, PCdoB, OCUPA DOPS, SINDICATO DOS METALÚRGICOS, SINDICATO DOS PORTUÁRIOS, SINDICATO DOS MÉDICOS, SINDICATO DOS MÚSICOS, MOVIMENTO MARTINS SEM PENA, AERJ (Associação dos Estudantes Secundaristas do Rio de Janeiro), LEVANTE POPULAR DA JUVENTUDE, JUVENTUDE E REBELIÃO e o tradicional bloco da região portuária VIZINHA FALADEIRA. Soma-se a essas entidades representantes dos mandados de Jandira Feghali, Wadih Damous, Chico Alencar e Renato Cinco, além da presença de Roberto Amaral e de inúmeros representantes da classe artística carioca em um total de 250 manifestantes que fizeram uma caminhada pacífica do prédio de Docas (DCRJ) até a sede do Píer Mauá.

Para nós da Companhia Ensaio Aberto foi um dia histórico. Como bons filhos do Brasil nós nunca fugimos da luta, tanto no palco quanto nas ruas, e em décadas de história sempre nos mantivemos fiéis ao levantar junto com todos esses companheiros a bandeira das inúmeras lutas da esquerda brasileira. Foi o dia em que nos transformamos em uma dessas lutas e todo apoio e coerência que sempre guiou nossa militância artística esteve representado no engajamento de cada militante e entidade presente. Mas a luta ainda está longe de acabar. Em mais um flagrante de gritante ilegalidade, fomos citados durante a manifestação por um oficial de justiça que nos apresentou uma ordem de despejo conseguida pelo Píer Mauá para abandonar o Armazém até o dia 17 de agosto, nossa data limite.  Nós da Companhia Ensaio Aberto continuamos vigilantes nos inúmeros desdobramentos dessa luta e nessa batalha, para que o Armazém da Utopia continue sendo a casa do Teatro dos Trabalhadores Brasileiros.


A luta é árdua, e abre espaço para a reflexão de novos paradigmas que estão sendo construídos. A teórica Iná Camargo Costa já vem chamando a atenção dos grupos e coletivos paulistas sobre a forma corajosa e transparente com que a Companhia Ensaio Aberto vem lutando pelo direito real de uso do Armazém da Utopia junto às esferas do poder público. Afinal são mais de 4 anos de uma ocupação artística e popular que trouxe um público de mais de 400 mil pessoas a uma área que na época, estava completamente abandonada, e que nos últimos anos vem se transformando diariamente ao custo das tantas obras que fazem parte do projeto Porto Maravilha. E cabe ressaltar que tivemos excelentes públicos e nunca cancelamos um único espetáculo, mesmo nos momentos mais ruidosos da derrubada da Perimetral e da construção do VLT na Av Rodrigues Alves. Gosto de pensar que nossa ocupação questiona no seu fazimento (Ave Darcy Ribeiro), o círculo vicioso dos tantos editais culturais que colocam a cultura no lugar elitista do entretenimento e da mercadoria, e longe da sua verdadeira vocação: ser uma ferramenta popular de reflexão e transformação social. Talvez isso explique a presença dos tantos movimentos sociais nos dando seu apoio. Eles nos ajudaram a ocupar o Armazém da Utopia com a visão de mundo dos homens, mulheres e segmentos da sociedade civil que sempre levantaram as bandeiras mais progressistas da esquerda brasileira. E é simbólico e sintomático termos contato com a presença festiva e consciente do movimento MARTINS SEM PENA entre os inúmeros representantes da classe artística que nos deram seu apoio. Eles enfrentaram e continuam enfrentando um tipo de ameaça com sintomas parecidos (omissão e desconhecimento do poder público), e as boas vitórias que tiveram foram fruto do seu engajamento na boa luta política. Eles sabem na pele, como nós sabemos, que esse tipo de luta faz diferença não apenas na conquista dos direitos parecidos pelo quais lutamos, mas, principalmente, na formação do artista-cidadão atento e presente aos desafios políticos que esses estranhos tempos nos oferecem. Porque está bem claro para nós, e espero que fique claro para nossos companheiros de ofício que se solidarizam com a nossa causa, que quando defendemos o nosso direito real de uso para ficar com o Armazém da Utopia, não estamos apenas pensando em garantir uma sede para a Companhia Ensaio Aberto. Estamos lutando para manter o Armazém da Utopia em algo que ele já é, um ponto de encontro entre a cultura e os movimentos sociais. Um lugar para se debater o Brasil com a seriedade e a profundidade que falta em tantos outros teatros públicos e nas tantas redes sociais. Porque o teatro só é realmente político como nos prescreve Brecht, quando deixa de ser entretenimento e se transforma em assembléia. Temos aprendido que a distância entre teatro e assembléia é menor do que pensávamos. E essa constatação vem mais do nosso público do que de nós mesmos. Foi o que vivenciamos no fim de cada função de SACCO E VANZETTI. O espetáculo não terminava com as palmas. Ele continuava nos debates e considerações de depois. São muitos os atores políticos que acreditam no teatro dessa forma como acreditamos, seguindo o bom caminho aberto a duras penas por Vianinha, Gianfrancesco Guarnieri, Fernando Peixoto, Plínio Marcos e tantos outros. E são muitos os atores sociais vindos de faculdades, sindicatos, comunidades e movimentos sociais que se ressentem da escassez esse tipo de teatro.  O Armazém da Utopia é o ponto de convergência dessa utopia compartilhada. Para nossa alegria, são muitos os que acreditam nessa Utopia. 



Foto: Marcelo Valle



Foto: Marcelo Valle



Foto: Marcelo Valle




Foto: Marcelo Valle




Foto: Marcelo Valle


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